Inicial Institucional Empresa Candidato Vagas Anunciadas
Trabalho e vida em tempos modernos


Por Bruno Engert Rizzo


Marketing e teatro passaram a ser a essência das relações e estão presentes em praticamente tudo que nos cerca.

Lamentavelmente, todo este jogo que beneficia uma minoria, transforma a vida da grande maioria dos cidadãos do planeta Terra num calvário, onde viver o dia a dia deixou de ser prazeroso e passou a ser uma obrigação dolorosa.

De forma genérica, é assim nas relações entre governo e governados, entre produtores e consumidores e patrões e empregados. As exceções ainda são um grupo minoritário.

Para algumas pessoas, e não são poucas, viver passou a ser um regime que se assemelha a uma escravidão em regime semi-aberto. Ou seja, o indivíduo tem apenas o direito de dormir em casa. No restante do tempo é escravo de obrigações.

Ainda que pareça um desperdício dormir 1/3 da vida, esta é uma necessidade biológica que ainda não sabemos contornar.

Mas se aquela parcela do tempo de vida dedicada ao trabalho fosse prazerosa, a vida poderia ter outro sentido. Não se trata de encurtar a jornada de trabalho, mas sim, mudar o ambiente e as regras para que o trabalho não seja um castigo.

Aqui cabe um parêntese para lembrar que todos os avanços tecnológicos foram explorados de forma equivocada pela sociedade.

Há 20 anos um engenheiro calculista levava alguns meses para desenvolver um projeto estrutural de um grande empreendimento. A elaboração do projeto executivo consumia tempo e ocupava toda uma equipe de trabalho.

Com a evolução tecnológica, em especial do ramo da informática, desenvolver um projeto estrutural de um grande empreendimento ficou reduzido a algumas semanas de trabalho com um equipe reduzida. Profissões como desenhista e projetista praticamente foram extintas.

Tudo seria maravilhoso, não fosse o fato desta sobra de tempo ter sido preenchida com mais trabalho com uma remuneração mais baixa. Ou seja, os benefícios do avanço tecnológico não foram repartidos de forma a beneficiar também aqueles que efetivamente trabalham. Outros se apropriaram desse tempo e dos benefícios que poderiam trazer àqueles que efetivamente trabalham.

Pior ainda, de forma genérica, os tempos de referência para cumprir tarefas complexas, mudaram, tomando-se por base a velocidade de bits e bytes. Tudo passou a ser para ontem com exigência de padrão de qualidade de trabalho mecânico.

A grande questão é que não somos máquinas. Pelo contrário, somos humanos. Progresso, tecnologia, mecanização e automação, deveriam nos trazer conforto, saúde e tempo para aproveitar a vida.

Uma pesquisa realizada em âmbito mundial pela Right Management, mostrou um resultado interessante. Qual seja, que apenas 34% dos funcionários em organizações com mais de 50 funcionários se identificam como totalmente comprometidos, enquanto 50% se identificaram como completamente sem comprometimento.

O estudo revela ainda que 9% dos entrevistados indicam que possuem comprometimento com suas organizações, mas não com seus trabalhos e 7% indicam que estão comprometidos com o trabalho, mas não com a organização.

Os resultados da pesquisa talvez sejam surpresa para diretores de Recursos Humanos que vivem encastelados em seus gabinetes e alheios à realidade, alimentam-se de marketing e teorias fantasiosas, supostamente baseados em psicologia e estudos comportamentais.

Todo esse processo é uma violência que atenta contra princípios de respeito ao indivíduo e à privacidade, além de ser uma exploração vil. Funcionários que não aceitam as regras deste jogo, atualmente considerado padrão na administração de corporações, ou que sejam mal avaliados nas dinâmicas de grupo, são considerados “anti-sociais” e descompromissados com a empresa. Consequentemente ficam marcados, tendo a evolução funcional obstada e se tornam alvos prioritários de demissões.

Quesitos como capacidade técnica e elevados valores morais têm pouco valor neste jogo que privilegia fachada, falsidade e teatro. A prova mais contundente desta realidade são as dinâmicas de grupo que impõem situações e um relacionamento forçados, desrespeitando privacidade, intimidade, adversidade, preferências e vontades individuais.

Deste conjunto de práticas, surgem as grandes distorções que transformam trabalho em calvário.

Mais do que nunca missão, visão e principalmente valores, se transformaram em peças publicitárias enganosas.

Ética, transparência, efetividade, competência, respeito, humanização, compromisso social, respeito à vida, respeito à diversidade, costumam estar presentes no discurso e cartilha de todas as empresas. Mas ainda, no bojo dos valores costuma vir escrito algo como “orgulho de ser empresa X”.

Na realidade orgulho de pertencer a empresa é uma resultante que naturalmente seria construída a partir do respeito aos demais valores.

A adoção deste sistema de administração que tenta desconstruir a personalidade para implantar no indivíduo o padrão da empresa ou corporação, atenta contra todos os valores normalmente estampados nas cartilhas destas empresas e corporações.

Além disso, o modelo atual de gestão tem uma série de práticas correntes que indiretamente atentam contra o ambiente de trabalho e ferem valores elementares. Exemplos típicos são o estímulo da competitividade que não respeita barreiras éticas, muitos dos benefícios indiretos computados como vantagem com um peso desmesurado, equipes de trabalho subdimensionadas e cronicamente sobrecarregadas, planos de evolução de carreira incompatíveis com necessidades da vida real, e uma lista sem fim de práticas consideradas aceitáveis, mas que não resistem a uma análise crítica.

Via de regra, o chefe que deveria ser um líder com capacidade de produzir resultados, mas ao mesmo tempo zelar pela saúde mental, financeira e conforto dos subordinados, é escolhido por critérios que desrespeitam todos os valores elementares. Ao contrário do discurso, o valor supremo que norteia a escolha do chefes que são impostos como “líderes” é a obtenção de resultados a qualquer custo e sacrifício.

O chefe do chefe é pior e conforme a pirâmide sobe, mais e mais os valores são deturpados e a prática se afasta dos mandamentos da cartilha da empresa.

Pelo contrário, cada vez mais nos aproximamos de um sistema de escravidão em regime semi-aberto, no qual o indivíduo pertence à corporação devendo trabalhar num turno, produzir marketing gratuito nos demais e no tempo restante se alimentar e dormir para manter a saúde e não afetar o desempenho no trabalho.

É lamentável que em pleno século XXI, estejamos vivendo o lado mais desumano de ficções científicas sombrias que previam sociedades dominadas com indivíduos internamente insatisfeitos. Apesar de todo avanço de ciência e tecnologia a humanidade ainda está engatinhando no desenvolvimento espiritual.





Publicação: 11/03/2011 17:11:08
Copyright © STAFF'S. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.
Versão 1.0 - desenvolvido por MEDsistemas.